terça-feira, 30 de abril de 2013

Carla


Chegou com um ar cansado à camioneta
os seus olhos intensos e claros (intensamente azuis)
denunciavam uma espécie de enfado (de exaustão ?)
que a propria voz ao telemóvel não conseguia esconder

Apesar do seu longo e profundo cabelo negro
e da sua pele cuidadamente bronzeada
parecia estar de alguma forma farta disso tudo

Como se o facto de ser uma mulher atraente lhe fosse agora de alguma forma um fardo difícil de carregar.
quantas secas teve (já hoje) de aturar a indivíduos que constantemente lhe gabavam a cor dos olhos
(que parecia que não conseguiam ver mais nada)

ou a desconhecidos que inventavam os pretextos mais absurdos para meter conversa com ela no autocarro

Isto para não falar de algumas formas particularmente mais desagradáveis de assédio de que às vezes podia ser alvo no trabalho.

Talvez alimentasse agora um secreto desejo de ser feia.
de poder andar na cidade de forma anónima e tranquila

De poder ser invisível para poder ser Ela a olhar
e utilizar as suas iris tão claras e cristalinas para aquilo que elas verdadeiramente serviam :
para ver o mundo despreocupadamente.

Talvez estivesse simplesmente farta de ser bonita

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Berta

Berta, não faz mal

olha, sabes uma coisa ?
o que eu te queria dizer era que
não faz mal

não faz mal que não tenhas podido vir cá ter
não faz mal. (sabes ?)


E também não faz mal que a gente provávelmente nunca mais se volte a encontrar
não faz mal.
(não faz mesmo !)

porque eu já sei que já não te irei esquecer
e por isso (já) não faz mal.

já não faz diferença
(porque já a fizeste)


(Carta a Berta ?)