domingo, 9 de março de 2014

Helena (mente)

A maneira mais triste de se estar contente
A de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
Inalterável forma de se ser sempre diferente
Maneira mais complexa de viver mais simplesmente
De ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
De estar num sítio tanto mais se mais ausente
E mais ausente estar se mais presente
De mais perto se estar se mais distante
De sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
De se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
De mentir muito verdadeiramente
De dizer a verdade falsamente
De se mostrar profundo superficialmente
De ser-se o mais real sendo aparente
De menos agredir mais agressivamente
De ser-se singular se mais corrente
E mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
A treda actuação de quem actua lealmente
E é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
De tentar tanto mais quanto menos se tente
De ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
De estar mais no passado se mais no presente
De não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
De ser tão insensível como quem mais sente
De melhor se curvar se altivamente
De perder a cabeça mas serenamente
De tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
De tanto desistir e de ser tão constante
De articular melhor sendo menos fluente
E fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
É para interessar-se ser indiferente
Quando Helena recusa é que consente
Se tão pouco perdoa é por ser indulgente
Baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
Tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
E só convence assim por não ser muito convincente
E melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: Helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente


Ruy Belo
Transporte no Tempo

1997 

Gina

Eu sei que não te importas , e não tens vergonha com isso.
E com um corpo como o teu não tens nada que te envergonhar
(mesmo sem ir ás revistas)

Mas se dependesse de mim nunca uma mulher teria de usar um nome como esse.

vá, Gina. (não fiques assim.)
Deixa-me entrar.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Filipa


Se fosses uma tatuagem*

eu mandava-te agora remover

*(daquelas que se fazem pensando que é para sempre)

por mais doloroso que o seja

seria todavia melhor assim

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Eliana

(Ele e Ana ?)
A primeira coisa que (eles) me disseram de ti
foi que fazias danças no varão
era um trocadilho involuntário
(e talvez de mau gosto)
quando na realidade
o que tu fazias mesmo era danças de salão
e consta que o fazias muito bem
(mas já sabes como são as más línguas)

ou talvez fosse a absoluta sensualidade do teu corpo
(capaz de fazer baralhar as palavras a um qualquer varão)
mas talvez seja isto também
um trocadilho de mau gosto

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dora


Eras já uma mulher
entuanto nós ainda decidiamos
se deixávamos os nossos pelos crescer

mas mesmo assim
ainda me ofereceste alguns intensos olhares
por detrás da tua precoce maqulhagem

mas a verdade é nessa altura
o meu destino era ainda apenas a meninice

e se calhar ainda é

terça-feira, 30 de abril de 2013

Carla


Chegou com um ar cansado à camioneta
os seus olhos intensos e claros (intensamente azuis)
denunciavam uma espécie de enfado (de exaustão ?)
que a propria voz ao telemóvel não conseguia esconder

Apesar do seu longo e profundo cabelo negro
e da sua pele cuidadamente bronzeada
parecia estar de alguma forma farta disso tudo

Como se o facto de ser uma mulher atraente lhe fosse agora de alguma forma um fardo difícil de carregar.
quantas secas teve (já hoje) de aturar a indivíduos que constantemente lhe gabavam a cor dos olhos
(que parecia que não conseguiam ver mais nada)

ou a desconhecidos que inventavam os pretextos mais absurdos para meter conversa com ela no autocarro

Isto para não falar de algumas formas particularmente mais desagradáveis de assédio de que às vezes podia ser alvo no trabalho.

Talvez alimentasse agora um secreto desejo de ser feia.
de poder andar na cidade de forma anónima e tranquila

De poder ser invisível para poder ser Ela a olhar
e utilizar as suas iris tão claras e cristalinas para aquilo que elas verdadeiramente serviam :
para ver o mundo despreocupadamente.

Talvez estivesse simplesmente farta de ser bonita

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Berta

Berta, não faz mal

olha, sabes uma coisa ?
o que eu te queria dizer era que
não faz mal

não faz mal que não tenhas podido vir cá ter
não faz mal. (sabes ?)


E também não faz mal que a gente provávelmente nunca mais se volte a encontrar
não faz mal.
(não faz mesmo !)

porque eu já sei que já não te irei esquecer
e por isso (já) não faz mal.

já não faz diferença
(porque já a fizeste)


(Carta a Berta ?)